sábado, 26 de maio de 2012

Pequeno tratado da Ana Lucia de autopreservação - Uma tentativa de escapar ilesa do mundo da filosofia acadêmica. (Para ler e reler sempre que correr perigo)




1 - Que o prazer de aprender jamais se deixe ofuscar pela obrigação do saber. 

2 - Que o pensar jamais se sobreponha ao sentir.

3 - Que eu nunca esqueça que a vida acontece nos bosques da vida, e não nos labirintos dos pensamentos alheios.

4- Que a filosofia me abra horizontes, ao me apontar infinitas possibilidades, mas jamais me feche os caminhos, impondo-me qualquer uma delas. 

5 - Que a filosofia seja minha servidora, e não eu sua escrava. 

6 - Que, por mais que eu aprenda, jamais me afogue na vaidade oceânica dos que se julgam pensadores, mas continue flutuando com a irreverente leveza dos que se deixam levar pelas marolas das livres ideias.

7 – Que, por mais que eu veja e conheça, eu não perca a capacidade de me admirar, me indignar e me revoltar. E que a postura necessária ao debate filosófico se restrinja a ele e nunca afete minha espontaneidade. 

8 – Que as minhas reflexões sejam sempre repletas de interrogações e que minhas afirmações não sejam surdas às afirmações alheias. 

9 – Que eu jamais seja apenas um recorte de mim e que eu nunca julgue os outros por pequenos recortes deles. 

10 - Que eu nunca me orgulhe demais pelo que sei e nunca me envergonhe demais pelo que não sei. 

11 – Que eu nunca acredite que algo ou alguém é brilhante apenas porque foi aceito como brilhante por uma maioria. 

12 – Que eu nunca julgue a minha crença mais digna de respeito do que a crença alheia. 

13 - Que as epígrafes, citações, notas de rodapés e bibliografias não me consumam, roubando o caráter lúdico do filosofar.

14 – Que eu sempre tenha consciência do meu valor, mesmo que ele não seja reconhecido por outros. 

15- Que, embora ame o debate, eu jamais esqueça o quanto é bom um silêncio compartilhado e o quanto os jogos carnais podem, às vezes, ser bem mais interessantes do que as disputas intelectuais.

16 - E que, acima de tudo, eu nunca perca de vista a poeta que sou, em detrimento da filósofa que ensaio ser.  

17 - Que a minha grande viagem se dê fora do tempo e do espaço, nas estrofes das poesias. Porque, no final das contas, embora ame filosofar, o que eu quero mesmo é poetar... ;)

Obs: este tratado está em permanente construção.

Analú

domingo, 13 de maio de 2012

Fantasia



  
                    Hoje, passeando por aí,
                    linda, linda,
                    toda enfeitada pela tua imaginação,
                    de repente me pus a me perguntar
                    o que já muitas vezes me perguntei: 
                    o que será de mim
                    - se acaso existirei -
                    quando, nalgum dia,
                    deixares de me imaginar. 

                                                                               Analú
 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Carta ao poeta Germano Xavier - Lou Salomé veio me ver




São Paulo, 10 de maio de 2012

Querido Germano:

            Hoje, antes mesmo que eu acordasse, Lou Salomé veio me ver.
            Eu não sei se se apiedou de mim, por conta da difícil semana que tive, mas veio doce e parecia cheia de vida, querendo me dar algum consolo. Estava mesmo com um ar compassivo, como se quisesse me aliviar, mostrando-me que é possível passar por tudo e sobreviver. Sua presença ao meu lado, sentada em minha cama, me dizia isso, veladamente. Trazia os cabelos soltos, e nunca, em nenhuma foto sua seu farto volume me parecera tão belo. A luz própria que eu sempre ouvira dizer que ela tem era ainda mais viva do que nos relatos que eu lera. Estava ofuscante, como se estivesse sob o sol numa pintura impressionista. Linda.  
            Disse ter lido o que postei no blog, e ter se identificado tanto com minha sede de viver, que teve vontade de passar por aqui para me confortar e me dizer que me compreende. E me trouxe algumas palavras, uma pequena poesia, num papel amarelecido. Fiquei tão emocionada, Germano, que guardei o pequeno papel na gaveta da minha mesa-de-cabeceira e agora ele está lá, me esperando, para que eu o leia antes de adormecer. Não tive coragem de ler na presença de Salomé e percebi que ela me entendeu perfeitamente, consentindo, com um sorriso, que eu guardasse seu escrito. Lerei imediatamente antes de fechar os olhos, pra que suas palavras fiquem impressas em minha mente e, quem sabe, ela volte a me aparecer em sonho.
            Quando me percebeu surpresa ao saber que lera o que escrevi, me confessou que já me lê há um bom tempo e que o que a acordou para os meus escritos foi o fato de, por duas vezes, eu ter te enviado aquele lindo poema dela, em que ela nos aconselha a ousar. Percebendo tamanha admiração da minha parte, quis saber quem era essa mulher que tanto a conhecia sem que ela a conhecesse. Curiosa, passeou pelos meus textos, e encontrou neles algo que lhe agrada. Não me disse exatamente o quê, mas me olhou como se já conhecesse minha alma e tivesse por ela grande amizade.
            Disse-me, então, que quis me conhecer de perto, para poder me dizer algumas palavras de estímulo e de coragem. Que sabe das dificuldades que enfrento por não me curvar ao que esperam de mim. Que percebeu que sou um pouco rebelde e muito apaixonada. E que lhe ficou evidente que me movimento muito mais em função de meus estímulos internos do que dos externos, e tudo isso lhe agradou. Notou, em algumas das minhas poesias, questionamentos que sempre se fez em relação ao amor e às regras mesquinhas que a sociedade lhe impõe, apequenando-o infinitamente para que caiba dentro de pequenas saletas sem janelas, onde, talvez, amantes inseguros se sintam mais protegidos do que num mundo tão cheio de paixões. E se riu disso, porque, afinal, são as paixões que colorem a vida, e se os amantes compreendessem que temos uma individualidade e que nem tudo precisa ser revelado, as paixões durariam muito mais.
            Também percebeu o quanto me encantam jovens poetas, e como me relaciono bem com homens, no que se identifica comigo. Também os acha apaixonantes. Rimos, alegres, por percebermos em nós uma compreensão tão grande da outra, que parecia nem ser necessário conversarmos, tudo estava dito. E, nesse instante, percebi que sua casa deve mesmo ser a felicidade e concordei sem ressalva alguma com sua ideia de que a única perfeição é a alegria.
            Germano, ainda com um resto de sorriso nos lábios Salomé voltou a falar de você. Me contou que lhe agradou demais essa nossa amizade, porque percebeu algo de belo no nosso interesse mútuo, que nos faz crescer e produzir. Tenho pra mim que Salomé ama tanto o amor e a criação, que veio para me estimular a prosseguir, porque sabe que preciso ganhar a minha vida e que às vezes fraquejo, porque escrever ainda não me garante a subsistência. Como que me apontando uma saída, me falou dos textos que vez ou outra comercializa para cobrir suas despesas, e me disse viver na simplicidade, mas mostrou-se consciente sobre ser o meu mundo muito diferente do dela.
          Contei-lhe que nos dias de hoje, aqui onde vivo, é preciso se trabalhar muito para se viver com um mínimo de dignidade, mesmo que tenhamos um estilo de vida simples, e que nossos valores morais se sobreponham aos materiais.  Mas não me prolonguei nesse assunto, por achar que Salomé poderia considerá-lo enfadonho, uma vez que é enfadonho de fato.  
            Perguntei-lhe então se também lia seus textos, Germano, e ela me disse que lera apenas uma poesia sua, por estar entre as minhas.  Justamente a poesia que você me dedicou, naquele dia em que eu estava injuriada por ter sido ofendida por um leitor mal-educado. “Não deixe de escrever”.  Obrigada, mais uma vez, Germano. Sua poesia transformou aquele dia que havia começado tão mal num dia feliz. Creio ter sido essa poesia que fez saltar aos olhos de Salomé o quanto de positivo há no nosso relacionamento, poeta.
            Mas, embora tenha lido apenas essa poesia, ela leu a carta que você mandou pro Rilke, porque ele falou sobre você e sobre a carta com tanto carinho e respeito, que a curiosidade a fez pedir-lhe que lhe mostrasse. Leu sua carta ao lado de Rilke, e me disse que os dois se emocionaram. E que a resposta que Rilke lhe deu, na verdade, já pressupunha a sua resposta aos questionamentos que ele lhe fez. Que simplesmente pela beleza de sua carta, Germano, já seria possível, mesmo sem ler qualquer poema seu, concluir que não poderia viver sem escrever. Se Salomé e Rilke se emocionaram juntos ao ler sua carta, quem não se emocionará ao ler suas poesias?
            Por fim, Salomé me passou um recado de Rilke, pedindo-me que o repassasse a você. Na verdade, um pedido. Pediu que continuemos a amar e a criar, porque assim os deuses jamais nos abandonarão. E que não nos percamos buscando grandes propósitos, porque a vida está nas pequenas coisas, como nas grandes. No que é apenas visível e no que é imenso.
            Quero que sinta, daí, a certeza que estou sentindo aqui. E que, como eu, prossiga, sem vacilações, e contando comigo.
            Hoje, meu amigo, não há cético convicto ou sofista talentoso que, mesmo com irretocável retórica, me convença de que o afeto que nutrimos um pelo outro, por se dar nesse mundo virtual, seja irreal. Aliás, você sabe que jamais considerei o virtual irreal. Se não pudéssemos amar quem não podemos tocar eu não poderia amar Proust nem você Drummond. No entanto, bem sabemos o quanto podemos ser intimamente tocados, mesmo sem sermos tocados fisicamente. E o quanto, muitas vezes, quem nos toca fisicamente não chega sequer a resvalar em nossa alma.     
            Essa visita de Salomé me caiu como uma bênção, um endosso a tudo o que tenho feito e um estímulo para prosseguir, confiante. Se Salomé me compreende como nenhuma irmã ou amiga jamais me compreendeu, não preciso mais de compreensão alguma. Que esses mortos-vivos que se arrastam por aí fiquem no mundo dos mortos, por que estou irreversivelmente amasiada com a vida.
            Germano, desculpe-me pela extensão da carta. Mas a presença de Salomé me colocou em tal estado de alegria que mal posso me conter e qualquer mínimo detalhe desse encontro e do que provocou em mim me parece importante demais para ser omitido.
            Vou agora em busca da poesia que Salomé me deixou. E embora saiba ser grande a possibilidade de nada encontrar na pequena gaveta de minha mesa-de-cabeceira, isso é absolutamente irrelevante, porque sua passagem por aqui já me impregnou toda. Estou poesia pura.

Um abraço apertado,

Analú

Links relacionados: 
Para saber um pouco sobre Lou Salomé: http://eternamentelou.blogspot.com.br/

sábado, 5 de maio de 2012

Pequeno diário de uma semana intensa, perambulando entre a morte e a vida – estou viva.


                    
            Sábado. Como nada é garantia de nada, uma estrada tranquila não foi garantia de uma viagem tranquila. Durante mais de seis horas estados internos desfavoráveis se sobrepuseram a condições externas favoráveis e me fizeram imaginar que eu poderia morrer liquidificada entre uma enxaqueca feroz e uma cruel crise de enjoo. E me renderam um domingo submerso em gatorade e solidão. Nada de que me arrependesse, uma vez que a intenção era nobre: estar presente no casamento de alguém muito querido. Celebrar o amor.
            Segunda. Missão cumprida. De tanto que me cuidei fiquei zerada. Fui pra festa feliz da vida. Nunca assisti a casamento tão lindo. O pé dentro da igreja já é garantia de choro sentido. O coral, um escândalo. Eu queria mesmo saber o que é que faz mulheres chorarem tanto em casamentos. Talvez seja a beleza da crença na ilusão, mesmo sabendo-a ilusão. Não sei... Depois do beijo, Beatles colocando a igreja abaixo. Todo mundo cantando “All we need is love” e em mim a convicção de que se é possível se duvidar de tudo, do poder do amor não duvido.
            Festa! Muita comida, muita bebida, muita gente bonita, muita emoção. Na pista, os jovens se entregavam à dança com despudor total. Me perguntei que diabos fizera com a minha vida compartilhando-a com um homem que nunca me tirara para dançar. Pra todo o resto eu poderia arrumar alguma desculpa, esfarrapada ou bem vestida, mas pra isso não. Como eu pudera não perceber o quanto podia ser lesivo ficar sem dançar por toda uma eternidade de 24 anos? Fiquei mastigando essa pergunta, junto com um pedacinho de bem-casado e com o cafezinho da saída, um pouco amargo.
            Terça. A opção por voltar de avião só encurtou o sofrimento, porque o céu carregado não ajudou em nada... Cheguei a Sampa meio que desmilinguida, mas pronta pra outra.
            Quarta. Eu só não sabia que essa outra viria tão rapidamente, e em sentido tão oposto. Depois da aula, ao ligar o celular, recebo uma mensagem de texto me avisando do velório de uma amiga querida. Saí da faculdade e fui ao encontro dela, mas ela já não estava lá. Só um caixão com um corpo sem vida.
            Percebi então que morrer não é como a quase-morte do enjoo que precede o vômito. Morrer é morrer. É sair de cena de vez. Olhando minha amiga, que já não estava lá, não vi vida alguma ali. Nem um fiapo. A não ser na dor dos que choravam à sua volta. Me vieram à mente as palavras de Epicuro, em sua carta a Meneceu, e tive que concordar com ele. A morte não é problema nosso, porque quando estamos ela não está e quando ela está já não estamos.  A morte é problema dos que ficam, porque eles é que terão que reorganizar suas vidas e superar a dor da saudade.
            Olhei em volta e, vendo o cansaço dos familiares, pensei na tirania da doença e no tanto de vida que essa triste exibicionista consome de todos os que se veem obrigados a conviver com ela. A morte, parece-me, pode ser uma grande amiga. Que imensa sorte é o imenso azar da morte pros que ficam e retomam suas vidas...
            Bateu-me então um enorme desarrependimento por todas as loucuras que fiz, fora de época, lixando-me pras regras e sem qualquer medo de vergonha ou vexame. Soubesse eu, mais jovem, o quanto perdemos de tempo acreditando em bobagens, mais jovem teria me desprendido delas.  
            Quinta. Acordei e chorei. Estudei e chorei. Fui pra prova com pepsamar na bolsa. Fiz o melhor que pude. Tive que escrever sobre Leibniz, e seu Deus criador do melhor dos mundos possíveis. Uma apelação mesmo... Pra mim, pura literatura. Aliás, se fosse literatura, poderia ser bem bonito...  

            Sexta. Ainda toda meio desconjuntada dou graças aos céus por já estar podendo comer melhor. Afinal, mais um casamento, mais uma festa, mais uma celebração de amor.  Me arrumo às pressas, sem me preocupar muito em estar maravilhosa, porque há tempos já deixei de lado a ilusão de ser a mais bonita da festa. Com simplicidade, faço boa figura. Vantagens que a idade traz.  O mais bonito desse casamento, sabe o que foi? Que o noivo abriu mão de casar com separação parcial de bens, o que é meio que uma regra hoje em dia. Nesse mundo tão selvagemente capitalista, tive a honra de assistir a um casamento em que o noivo simplesmente optou por casar com comunhão universal de bens, por estar casando com um amor de adolescência e acreditar que, realmente, estão juntos nessa vida. O cafezinho da saída teve até um gosto mais doce...
            Sábado. Obrigações. Compras. Sol. Música. Venho pela rua cantando “Encontro” junto com Gadú.

Olha só
Como a noite cresce em glória
E a distância traz
Nosso amanhecer
Deixa estar que o que for pra ser vigora
Eu sou tão feliz
Vamos dividir
Os sonhos
Que podem transformar o rumo da história
Vem logo
Que o tempo voa como eu
Quando penso em você...  

            Aumento o som, e venho sorrindo e chorando, toda misturada. Pelo tanto que me sinto viva e pelo tanto que morro sempre que não vivo o que desejo viver.  E me vem uma urgência, uma urgência infinda, uma sede enorme e um enorme pesar pelo sempre tão presente desacontecer.  
            Queria que não me escapasse tanta coisa por esses humanos dedos, tão finos e frágeis... 
            
Analú

domingo, 22 de abril de 2012

Platão, nós e o amor (Guia da Semana - 2011)

            No último mês estive estudando Platão. Seus diálogos Lísis, Fedro e O Banquete falam lindamente sobre amor e amizade. Embora sua abordagem tenha mais a ver com o amor à filosofia, as questões são análogas às relações entre os seres humanos. E nos fazem pensar. Muito.
            São vários os questionamentos de Platão sobre o amor, e como o vivemos. Amamos porque nos falta algo e buscamos no ser amado o que nos falta? Essa “falta” seria como uma doença, que nos leva a buscar nossa “cura” no outro? Se amamos por carência, quem nos retribui esse amor, é porque ama a carência que temos? Qual seria o amor ideal? Aquele em que, incompletos, buscamos o outro para nos completar, ou aquele em que, já nos sentindo completos, buscamos o outro para nos suplementar?
            E várias as teorias em que se pensar. Que os amantes são, inevitavelmente, ciumentos, e que furtam o amado de outras convivências que lhe seriam proveitosas, causando lhe um grave dano. Que perdem o domínio de si e têm seu entendimento e prudência afetados, sendo mais dignos de piedade do que de inveja. Que o amor, por fazer parte da natureza humana, é a única forma de sermos felizes. Que é através dele que podemos chegar à essência das coisas: do belo, da verdade, da virtude.
            O Mito de Diotima, no Banquete, diz ser o amor a relação entre a pobreza e a riqueza. Uma relação que germina e vive, enriquece, morre e de novo ressuscita, nunca empobrecendo nem enriquecendo definitivamente.
           Desde Platão, antes dele, e até hoje, esse assunto é sempre atual. O amor é um tema eterno. Suas questões, infinitas. No entanto, parece-me, o tema assume essa complexidade por desvirtuarmos sua essência e a confundirmos com nossas necessidades momentâneas, com nosso desejo de segurança, com orgulho e vaidade.
            Quando praticamos um amor desprendido e generoso, o que, afinal, é o amor de verdade, causamos estranheza e não raro tentam nos incutir extravagantes culpas.  O ser humano está tão habituado a traduzir o amor como relação de compromisso, regrada por limitantes leis absolutamente estranhas ao amor, que conseguir amar sem muito questionamento acaba sendo, pra muita gente, assustador.
            Às de Platão somam-se muitas outras perguntas. Afinal, quem me ama sem tentar me enclausurar, está querendo exatamente o quê de mim?  Quem me ama sem exigir exclusividade me ama de verdade? Quem não exige exclusividade saberá se dar a uma só pessoa? E isso é realmente necessário? Como posso confiar e me sentir seguro amando quem me ama sem exigir, sem tolher, sem restringir?
            O amor virtual é real? Por que eu deveria desconfiar de quem diz me amar sem nada me cobrar e estando a quilômetros de distância? O amor que se realiza no plano das ideias, e não na carne, é amor? Se um contato à distância pode provocar reações às vezes mais intensas do que contatos físicos, seria isso inteiramente fantasioso? Por que amar e se deixar amar, e dizer “eu te amo” com desprendimento, pode gerar desconfiança?
            Como posso amar e ter, em relação ao ser amado, o mais perverso sentimento de posse e um desejo de que ele só encontre a felicidade quando comigo?
            Pessoalmente, não vejo o amor como carência, mas como transbordamento e  sinto que quanto mais desconstruo o amor que me foi ensinado desde o berço, mais ele cresce e se aproxima de algo realmente belo.
            E sinto até dó do coitadinho do amor, imenso, infinito, sendo obrigado a agir entre quatro paredes de pequenas salinhas sem janelas e ali ter que dar o melhor de si. Como fazer bonito em espaços tão exíguos, entre tanta tirania, quando se é um tudo?
            Será possível vivermos o amor de uma forma maior, sem enclausurá-lo nos limites estreitos dos formatos tão bem conhecidos e treinados por nós?  Você já pensou nisso?

Analú

Publicado originalmente no Guia da Semana, em 2011- www.guiadasemana.com.br/Sao_Paulo/Mulher/Noticia/Ah_o_amor_.aspx?id=76131

domingo, 15 de abril de 2012

Resenha: HUME, DAVID. O Cético.



Resenha:
HUME, DAVID. O Cético.
In: Ensaios Morais, Políticos e Literários. Topbooks, 2004.

Hume  inicia O Cético criticando a estreiteza de horizontes do filósofo dogmático. Denomina de enfermidade dos filósofos a tentativa de explicar a vida e a grandiosidade da natureza através de princípios excessivamente limitados, reduzindo tudo a seu próprio ponto-de-vista. E propõe que suspeitemos constantemente de suas reflexões sobre a vida humana e seus métodos para conquistar a felicidade.
Em sua análise sobre a ingenuidade do dogmático em pretender elaborar uma cartilha que leve à felicidade, Hume nos mostra que isso seria tão inviável quanto elaborar uma receita de bolo que usasse sempre os mesmo ingredientes, agradáveis ao paladar do cozinheiro, sempre nas mesmas quantidades, pretendendo agradar a todos sem considerar as particularidades dos gostos individuais.  
            Para ele, as pessoas são diferentes, a experiência de cada um é única, cada momento é diferente do anterior e do que está por vir e a vida é mudança constante. E a mudança, a diversidade e a mistura do que é agradável para um e outro podem contribuir para tornar mais agradável a vida de cada um, dentro de suas particularidades.
Hume se pergunta se a felicidade é uma aventura.  E se o caminho para se chegar a ela seria seguir as próprias tendências e temperamento ou usar a razão para fazer as escolhas mais seguras.
A busca da felicidade deveria se dar da mesma forma para todos os homens? Ou cada um deve ser responsável por descobrir seu próprio caminho? Há perguntas que, respondidas objetivamente, podem indicar esse caminho? E ele, por fim, levaria para onde? Àquilo que, por paixão, cada homem considerasse ser a felicidade. Afinal, o olhar do apaixonado é que faz o objeto da paixão apaixonante.
Embora sua forma de escrever evidencie que se leva muito à sério, Hume, como bom cético, tenta minimizar a importância de sua opinião, pedindo ao leitor que não tenha por ela demasiada consideração. E avisa que aquele que imaginar ser possível encontrar na filosofia uma resposta mágica para a questão da felicidade, com certeza, se frustrará.
Então, aponta como princípio filosófico indubitável aquele que diz que nada é isto ou aquilo em si mesmo, pois os atributos das coisas sempre dependerão da visão humana, tanto no que se refere aos sentidos corpóreos quanto às coisas do espírito. Em todas as instâncias, segundo Hume, são sempre as paixões do espírito que censuram ou aprovam e atribuem valor aos objetos. Nosso argumento a favor de algo sempre tem como fundamento principal nosso gosto próprio, de acordo com as peculiaridades do nosso espírito.
Estando o homem em constantes mudanças internas, sua opinião sobre os objetos externos pode mudar constantemente sem que isso tenha o poder de afetá-los em si mesmo.   
Para Hume, o pensamento racional consegue diferenciar a verdade da falsidade usando um padrão real possivelmente existente na própria natureza das coisas, sem que particularidades do espírito interfiram de maneira significativa nisso.
No entanto, quando se trata de qualificar algo, o espírito experimenta sentimentos próprios que interferirão de forma crucial nessa qualificação. Como consequência, o objeto qualificado como belo por alguém poderá perfeitamente ser qualificado como feio por outro alguém.
Embora a reflexão racional leve ao entendimento de certas coisas, é apenas através da sensibilidade que o homem percebe a beleza de um objeto, não por ser ele belo em si, mas porque o próprio homem tem em si a paixão e o desejo por ele. É na satisfação ou na frustração desses desejos e dessas paixões que o homem experimenta a felicidade ou a miséria.
Nesse ponto, Hume cai na frequente e fatal contradição dos que combatem o dogmatismo: dogmaticamente elabora sua própria receita do bolo da felicidade. Nela, determinará os ingredientes que agradarão a todos os paladares, e os que devem ficar de fora. Fará um contraposição muito clara entre paixões que podem e não podem levar à felicidade. Preferirá o trabalho e a ação ao prazer. Defenderá a bondade, a alegria, a jovialidade e a esperança e estabelecerá como perfeita liga para tudo isso a moderação.  Por fim, sugerirá que o ingrediente mais saboroso desse bolo deveria ser a paixão pelo saber, por nos aproximar mais dos prazeres virtuosos do que dos prazeres materiais e por depender mais de nós mesmos do que de outros.
Felizmente, antes de oferecer o bolo aos convidados, Hume retorna ao início de suas reflexões, se curvando ao fato de que talvez nem todos possam saboreá-lo prazerosamente, e volta a considerar as diferenças individuais, as tendências naturais e as inclinações que nem sempre levarão o homem a ter na filosofia a cura para seus males.  Lembra que nem todos conseguirão se corrigir, mesmo tendo consciência do valor da virtude e mesmo se esforçando para isso. Considera a forte importância da personalidade e dos gostos e sentimentos e admite haver aqueles cuja tendência perversa jamais se curvará a argumentos em favor da virtude. Sua filosofia, bem como qualquer filosofia – conclui – infelizmente, não conseguirá tornar a humanidade inteira virtuosa.
Hume encontra algum consolo para essa triste constatação na crença de que ao menos os homens que já sejam razoavelmente virtuosos possam, deliberadamente, através de estudo e aplicação, adquirir hábitos virtuosos, afastando-se de suas tendências negativas, reformando, dentro do que for possível, o próprio espírito. Está aí o principal triunfo da arte e da filosofia. No entanto, a autoridade da filosofia terminará onde a natureza se impuser com mais vigor. Ou, indo pela vontade, em sentido contrário à sua própria natureza, o homem cairia na indiferença.
Mas, assumir a miserabilidade humana sem fazer nada contra ela seria, para Hume, tornar-se miserável para sempre.
Hume relembra, então, duas considerações filosóficas importantes.
Quando refletimos sobre a brevidade e incerteza da vida, e sobre as constantes mudanças que ela nos apresenta, a busca pela felicidade nos parece desprezível. No entanto, embora nossas paixões se mortifiquem por isso, nossa natureza nos diz que a vida humana tem alguma importância. Quando privados da fé nessa importância, tendemos a dar mais valor aos prazeres momentâneos.
O homem tem por hábito comparar-se constantemente aos outros e, infelizmente, tende a se comparar sempre a seus superiores, o que o faz sentir-se sempre em situação de desvantagem. O filósofo é capaz de escolher por olhar para o outro lado e perceber em si alguma vantagem, encontrando aí algum sinal de felicidade. No entanto, sendo de caráter superior, esse consolo trará consigo a tristeza pelo infortúnio alheio e a compaixão pelos outros. Eis aí uma consolação filosófica imperfeita.
Hume conclui defendendo a virtude como a melhor escolha, mas admitindo as dificuldades que o homem encontra para alcançá-la e curvando-se ao fato de que tanto o homem virtuoso quanto o vicioso, em seus mais diferentes graus de virtude ou de vício, não terão a garantia da felicidade.
E virtudes que deveriam, em princípio, levar o homem à felicidade, muitas vezes o levam ao caminho contrário.
Portanto, a conclusão final é de que a vida humana é mais governada pelo acaso do que pela razão e de que não devemos levá-la muito à sério, nem nos ocuparmos demais tentando estabelecer princípios de ordem geral. Enquanto pensamos demais sobre a vida, deixamos de vivê-la e a morte nos atingirá, a todos, da mesma forma.  
O que fica, ao final da leitura de O Cético, de Hume, parece ser: 
Vivamos! É o que de melhor podemos fazer por nós mesmos.    


                                                    Ana Lucia Sorrentino
                                                                                                                                                                 16/04/2012